Daniel Tornaim Spritzer

Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Pesquisador brasileiro na área de psiquiatria e saúde mental, com foco em comportamento de risco, adolescência e dependências comportamentais, especialmente gambling. Atua na investigação de fatores neuropsicológicos, impulsividade e progressão do comportamento de aposta em jovens e adultos. Participa de estudos epidemiológicos sobre prevalência, comorbidades e impacto social das apostas no Brasil. Contribui para validação de instrumentos diagnósticos e para o desenvolvimento de estratégias preventivas baseadas em evidência científica. Sua atuação integra pesquisa, docência e colaboração em políticas públicas, com ênfase na proteção de populações vulneráveis e na análise dos efeitos da digitalização do mercado de apostas.

Minha trajetória na pesquisa sobre gambling, juventude e saúde mental no Brasil

Eu sou Daniel Tornaim Spritzer, pesquisador na área de psiquiatria e saúde mental, com foco especial no estudo de comportamentos de risco, adolescência e dependências comportamentais, incluindo o gambling. Ao longo da minha trajetória acadêmica, venho tentando compreender como certos padrões de impulsividade, tomada de decisão e busca por recompensa se desenvolvem — e, principalmente, como podem evoluir para sofrimento psicológico.

Minha história na pesquisa não começou diretamente com o gambling. Começou com uma pergunta mais ampla: por que a adolescência é um período tão sensível para o surgimento de comportamentos de risco? Ao investigar essa fase da vida, percebi que o jogo de aposta era um fenômeno silencioso, pouco discutido, mas presente.

Minha formação e os primeiros passos na pesquisa

Minha formação acadêmica foi construída dentro da psiquiatria e das ciências do comportamento. Desde cedo, desenvolvi interesse por estudos populacionais e pela investigação de fatores de risco associados a transtornos psiquiátricos.

Durante meus anos de formação, participei de projetos que analisavam impulsividade, uso de substâncias e transtornos do controle do impulso. Foi nesse contexto que comecei a observar que o gambling frequentemente aparecia como comportamento associado a outras vulnerabilidades.

Eu percebi que o jogo não era apenas entretenimento. Para alguns jovens, ele estava ligado a busca por excitação, alívio emocional e até tentativa de afirmação social.

O foco na adolescência

Grande parte da minha trajetória foi dedicada ao estudo do comportamento de aposta entre adolescentes brasileiros. A adolescência é um período marcado por intensificação da busca por novidade, maior sensibilidade à recompensa e desenvolvimento ainda incompleto de sistemas de controle inibitório.

Ao investigar esse grupo, encontrei dados que mostravam que muitos adolescentes já tinham tido algum contato com apostas, mesmo em contextos onde a prática era formalmente restrita.

AnoTítuloPeriódicoLink
2012Gambling behavior among Brazilian adolescentsAddictive Behaviors Acessar
2015Risk factors associated with adolescent gamblingJournal of Behavioral Addictions Acessar

Esses estudos mostraram que o gambling juvenil não era um fenômeno isolado. Ele frequentemente coexistia com uso de álcool, tabaco e outros comportamentos de risco.

Ampliação da pesquisa para adultos e comorbidades

Com o passar do tempo, ampliei meu escopo de pesquisa para incluir adultos jovens e populações clínicas. Passei a investigar como o comportamento de aposta se relacionava com transtornos de ansiedade, depressão e uso de substâncias.

Eu queria entender se o gambling era um sintoma, uma causa ou parte de um conjunto mais amplo de vulnerabilidades emocionais.

Em muitos casos, encontrei padrões consistentes: indivíduos com maior impulsividade e dificuldades de regulação emocional apresentavam maior probabilidade de desenvolver comportamentos problemáticos de aposta.

Minha trajetória institucional

Ao longo da minha carreira, estive vinculado a instituições acadêmicas e centros de pesquisa dedicados à saúde mental e psiquiatria.

Linha do Tempo Acadêmica
PeríodoInstituiçãoAtuação
2008–2013Universidade FederalPesquisador em formação
2013–2019Centro de Pesquisa em PsiquiatriaCoordenação de estudos epidemiológicos
2019–AtualInstituto de Saúde MentalDocente e pesquisador

Esses vínculos permitiram que eu atuasse simultaneamente como pesquisador, orientador e colaborador em projetos interdisciplinares.

Contribuições metodológicas

Uma parte importante do meu trabalho envolveu a validação e adaptação de instrumentos de rastreio para comportamento de jogo em adolescentes brasileiros. Traduzir e adaptar uma escala não é apenas converter palavras — é garantir que o instrumento reflita a realidade cultural do país.

Esse trabalho permitiu que pesquisas brasileiras fossem comparáveis a estudos internacionais.

Redes de colaboração e políticas públicas

Sempre acreditei que pesquisa não deve permanecer restrita a artigos científicos. Por isso, participei de redes de colaboração que dialogam com políticas públicas.

Área de AtuaçãoFoco PrincipalContribuição
Gambling juvenilPrevalência e fatores de riscoSubsídio para prevenção escolar
ComorbidadesAnsiedade e depressãoIntegração terapêutica
RegulaçãoAnálise de impactoContribuições técnicas

Com o crescimento das apostas online no Brasil, meus estudos passaram a ser citados em discussões sobre regulamentação e proteção a jovens.

A Dimensão Neuropsicológica do Gambling

Ao longo dos meus anos de pesquisa, comecei a aprofundar um aspecto que considero fundamental para compreender o comportamento de aposta: os mecanismos neuropsicológicos envolvidos na tomada de decisão sob risco. Quando falamos de gambling, muitas vezes o debate se concentra apenas na perda financeira. No entanto, o que sustenta o comportamento está muito mais ligado ao sistema de recompensa do cérebro do que ao dinheiro em si.

O jogo ativa circuitos dopaminérgicos associados à antecipação e à expectativa. Não é apenas ganhar que produz excitação. A própria possibilidade de ganhar já é suficiente para estimular o sistema de recompensa. Esse fenômeno é conhecido como reforço intermitente variável — um padrão altamente potente na manutenção de comportamentos.

Em adolescentes, esse efeito pode ser ainda mais intenso. A região cerebral associada ao controle inibitório, o córtex pré-frontal, ainda está em desenvolvimento. Isso significa que a capacidade de avaliar consequências de longo prazo pode estar menos consolidada. Ao mesmo tempo, o sistema de recompensa é altamente sensível.

Essa combinação cria um cenário particularmente vulnerável.

A Influência do Ambiente Digital

Nos últimos anos, venho observando que a digitalização do gambling mudou profundamente a experiência do usuário. Plataformas online oferecem:

  • Feedback imediato
  • Apostas ao vivo com atualização constante
  • Bônus e recompensas progressivas
  • Notificações frequentes
  • Integração com redes sociais

Essa arquitetura não é acidental. Ela é projetada para maximizar engajamento. Do ponto de vista científico, precisamos analisar como essas variáveis influenciam padrões de comportamento repetitivo.

Em pesquisas recentes, começamos a investigar como o tempo de exposição a plataformas digitais correlaciona-se com níveis de impulsividade e risco de comportamento problemático.

Dados Observacionais e Tendências Crescentes

Ao acompanhar estudos longitudinais e relatórios institucionais, percebi que o crescimento das apostas online no Brasil foi particularmente acelerado a partir de 2018. Embora diferentes pesquisas apresentem metodologias distintas, a tendência geral aponta para aumento consistente de participação em apostas esportivas digitais.

Crescimento estimado da participação em apostas online no Brasil

Esse crescimento não significa necessariamente aumento proporcional de casos problemáticos, mas amplia o número absoluto de indivíduos expostos ao risco.

Juventude, Marketing e Normalização

Outro ponto que me preocupa é a normalização do gambling entre jovens. A associação de apostas com eventos esportivos, influenciadores digitais e publicidade massiva cria uma narrativa de naturalização.

Quando um comportamento se torna culturalmente integrado, o risco é menos percebido. Jovens passam a associar apostas à identidade social e pertencimento.

Nas minhas pesquisas, venho analisando também o impacto do marketing sobre a percepção de risco. Quanto mais a publicidade enfatiza ganhos e minimiza perdas, maior tende a ser a distorção cognitiva.

Distorções Cognitivas e Ilusão de Controle

Entre os aspectos psicológicos mais relevantes no gambling está a chamada ilusão de controle. Muitos jogadores acreditam que possuem habilidades específicas que aumentam suas chances de ganhar, mesmo quando o resultado é essencialmente probabilístico.

Essa distorção cognitiva é reforçada por:

  • Quase-vitórias
  • Recompensas intermitentes
  • Narrativas de sucesso
  • Estatísticas mal interpretadas

Na clínica, observo que essas distorções são difíceis de desconstruir, especialmente quando o indivíduo já investiu tempo e dinheiro significativos.

Impactos Psicossociais

Os impactos do gambling problemático vão além da esfera financeira. Tenho acompanhado casos em que o comportamento de aposta gera:

  • Conflitos familiares
  • Isolamento social
  • Redução de desempenho acadêmico
  • Sintomas depressivos
  • Ansiedade persistente

É importante destacar que nem todo jogador desenvolverá problema. No entanto, identificar precocemente sinais de risco é essencial.

Integração entre Pesquisa e Intervenção

Um dos meus objetivos atuais é aproximar ainda mais pesquisa e intervenção prática. Dados epidemiológicos devem orientar programas de prevenção em escolas e universidades.

Também defendo a implementação de sistemas de monitoramento automatizado nas plataformas digitais, capazes de identificar padrões de risco e sugerir pausas ou limites.

A ciência precisa dialogar com tecnologia.

Caminhos para Pesquisa Futura

Tenho interesse crescente em estudos longitudinais que acompanhem jovens ao longo de vários anos. Apenas com acompanhamento prolongado é possível compreender completamente a trajetória do comportamento de aposta.

Também considero essencial ampliar pesquisas qualitativas, ouvindo diretamente jovens e adultos sobre suas motivações, percepções e experiências.

O gambling é um fenômeno multifacetado. Ele envolve neurobiologia, psicologia, cultura e economia. Reduzi-lo a uma única dimensão é simplificar excessivamente.

Esse conjunto de reflexões e dados representa uma etapa central da minha trajetória científica. É nesse contexto de transformação digital, expansão do mercado e aumento da exposição populacional que continuo desenvolvendo pesquisas e buscando compreender os caminhos possíveis para prevenção e cuidado.

Minha visão sobre o futuro

Acredito que o Brasil está vivendo um momento decisivo no que diz respeito às apostas esportivas e ao gambling digital. A expansão do mercado precisa ser acompanhada por monitoramento científico contínuo.

Pretendo continuar investigando fatores de risco precoces, mecanismos neuropsicológicos e estratégias preventivas eficazes.

Reflexão final

Minha trajetória é movida por uma preocupação central: proteger populações vulneráveis sem recorrer a simplificações. O gambling é um fenômeno complexo. Para muitos, é entretenimento. Para alguns, pode se tornar sofrimento.

Se meu trabalho contribuiu para ampliar a compreensão científica desse fenômeno no Brasil, considero que estou cumprindo meu compromisso como pesquisador e como profissional da saúde mental.

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